Nós, fãs de tênis, já somos acostumados a sofrer com a escassez de jogos transmitidos pelas emissoras de TV (paga, é claro); com a baixa qualidade de alguns streams piratas na internet; com os elevados preços das transmissões oficiais dos sites especializados; com os nomes e sobrenomes complicados; com a barreira do idioma. Mas também já estamos habituados a sofrer com um questionamento frequente. Não sei vocês, mas eu tenho que responder quase que semanalmente o porquê do tênis e não o futebol, o vôlei, basquete, golf, baseball, bocha, biriba…
Dizem que as regras são complicadas, que os jogos são chatos e monótonos; Que é esporte de rico jogar e assistir; dizem que é fácil correr atrás de uma bolinha; dizem tantas coisas… Nós, não cansados de ter que explicar as regras a cada jogo, ainda temos que responder o famoso questionamento: Por que o tênis?
E, sabe, essa é uma pergunta sem resposta. É a mesma coisa de te perguntarem, por que tal time e não aquele? Por que se casou com aquela pessoa e não com aquela outra? Algumas escolhas que fazemos não são passíveis de explicação. Como explicar aquilo que não sabemos a resposta?
E são em torneios como o Australian Open que essas perguntas ficam ainda mais rotineiras. Em razão do fuso horário – a grande parte, pelo menos – acontece durante a madrugada, quando as pessoas “normais” estão dormindo. Mas como poderíamos dormir se ao mesmo tempo estão acontecendo inúmeras partidas simultâneas em Melbourne? Às vezes a programação, impiedosa, coloca no mesmo horário todos os nossos favoritos em quadra. Esse é o momento do Deus nos acuda. Abrimos várias janelas e improvisamos um verdadeiro mosaico na tela do nosso computador. Ao mesmo tempo nos divertimos com as transmissões desastradas da TV.
E quando, por um descuido qualquer, nos sucumbimos ao sono e perdemos um jogo ou outro, ou, sequer, aquele ponto capital. É o crime. Não nos perdoamos, por mais que tenhamos, fora do universo do tênis, uma vida comum, com afazeres e trabalhos de pessoas comuns. Alguns poucos sortudos podem virar a madrugada em frente à tela do computador e se deliciar com a programação generosa do torneio. Outros, como é o meu caso, são obrigados a fazer escolhas. Se não podemos assistir a todos os jogos, temos que escolher aqueles que são os mais importantes e que envolvam as nossas estrelas particulares. Nem que para isso seja necessário picar o sono. Será necessário. Na maioria dos dias, dormimos tarde, acordamos cedo e vamos trabalhar. Com olheiras, semblante cansado, verdadeiros cacos. Mas nos pergunte se estamos tristes, arrependidos. A resposta será a mesma sempre: Não. E o motivo é simples. Diferente da maioria, nós conseguimos ver naquele winner improvável, ou naquele ace no break point, um momento de imensurável prazer. Se a partida é cheia de reviravoltas, de lances espetaculares e repleta de emoção, pronto. Ganhamos nosso dia. Ou melhor, madrugada.
Ficamos a mercê daqueles que julgamos ser tão íntimos que os chamamos pelos nomes e apelidos, que às vezes nós mesmos criamos. Comemoramos aquele ponto decisivo, como se fosse uma vitória pessoal de cada um de nós; vibramos como se o mundo estivesse torcendo por nós; e, é claro, sofremos como se o fracasso nos pertencesse. Aplaudimos, gritamos, xingamos, pulamos, sofremos, vivemos intensamente aquele momento. E se quisermos rever um outro ponto, procuramos, feito loucos que somos, o vídeo daquela jogada. Se o jogo merece ser guardado ou se o perdemos, não tem problema. Existirá uma forma de baixar aquela partida e ver/rever quando e onde quisermos. Elegemos os heróis e heroínas e, da mesma forma, apontamos os vilões… Assumimos como nossos seus sorrisos e suas lágrimas.
No final do torneio somente uns sorrirão. A maioria irá lamentar a derrota. Uns conviverão pacificamente com o fracasso, outros ficarão decepcionados e haverá aqueles que botarão a culpa no juiz de linha que errou uma marcação duvidosa, ou no juiz de cadeira que não permitiu a utilização do desafio. Mas bola pra frente, por mais que seja duro e amargo o sabor da derrota, o tênis permite um renascimento a cada semana, a cada torneio. E a gente, num misto de ingenuidade e esperança, acreditamos que será diferente.
Parabéns, Novak Djokovic e Victoria Azarenka, os grandes campeões do Australian Open! Parabéns a todos os(as) outros(as) tenistas que fizeram o show acontecer e a maratona valer a pena!













