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A Situação dos Gringos

Indian Wells

Ainda no embalo do que escreveram os amigos Mário Sérgio Cruz (Azarenkices) e Filipe Ribeiro (T de Tênis) e, principalmente, por toda a tragédia que foram as transmissões de tênis essa semana nas TVs brasileiras, eu conversei com quatro, assim como vocês, apaixonados por tênis.

Os personagens desse post são pessoas comuns como você, exceto pelo fato de serem gringos. A estudante de Economia e Turismo Helena Mikic, de Split (Croácia), de 20 anos de idade, tenista dos 10 aos 15 anos e que  ainda bate uma bolinha por diversão. O Americano Dan Carter, de 26 anos, operário de construção civil, fã de lutas (Boxe, MMA, kickboxing), e que tem Vera Zvonareva como tenista favorita e também é fã de uma porrada de tenistas, inclusive Djokovic, Nadal, Clijsters, as  irmãs Wiliams e até Gustavo Kuerten. Ondrej Jirasek, Tcheco de 21 anos, estudante de ciências humanas na Universidade de Praga, dono do extinto fórum da Vaidisova (videoteca de jogos da ATP e WTA), além de praticante do esporte – desde a infância – e grande fã da ex-tenista Tcheca. O estudante Américo-Germânico, de 22 anos, Frederik Williams, fã de vários esportes e que tem como tenista favorita a holandesa Arantxa Rus. Nos próximos parágrafos, eles nos contarão se a precariedade de transmissão de jogos de tênis na TV é um privilégio somente dos fãs brasileiros.

Atualmente, no Brasil, apenas quatro canais contam com a transmissão de jogos de tênis em suas grades de programação: Sportv (destacando a cobertura de Wimbledon, US Open, Copa Davis e Masters 1000), Band Sports (que tem como carro chefe rodadas finais de torneios da WTA), ESPN (Australian Open, Roland Garros, US Open e outros torneios random) e Fox Sports – Acredite, há relatos de que esse canal existe o canal da SKY que mostra os ATPs 500. Todos, obviamente, canais pagos. Nos países dos nossos amigos é muito diferente. Na Alemanha, segundo Williams, apenas o canal aberto Eurosport mostra os jogos da WTA (todos os de nível Premier), além de 3 dos 4 Grand Slams (Australian Open, Roland Garros e U.S. Open). Na República Tcheca, Jiresek, conta que existe o canal aberto CT4 que transmite Wimbledon e jogos da Fed Cup e Copa Davis. Mesma situação da Croácia, onde duas estações de TV (Sportska televizija e Sportklub) transmitem a final de grandes torneios, além da Televisão Nacional da Croácia (HRT), que, às vezes, mostram jogos da ATP e da Copa Davis, conta Helena Mikic. A situação é ainda melhor nos Estados Unidos, como conta Carter: “Eu acredito que a cobertura de tênis aqui nos EUA é muito boa. Tênis não tem tanta cobertura que outros esportes têm (Box, MMA, futebol americano, basebol ou basquete), mas a cobertura de transmissão é muito boa. A NBC, uma das nossas quatro maiores redes de TV, sempre mostra”.

Não é apenas a situação da transmissão das TVs abertas lá fora que é muito melhor. A transmissão das TVs pagas é muito mais eficiente e ampla. Nos Estados Unidos, a situação é infinitamente melhor com a existência do canal pago Tennis Channel, que é “totalmente devotado ao tênis. Eles mostram jogos, notícias de tênis, programas preparatórios dos eventos, documentários, biografias de tenistas e tudo mais que tiver relação com o tênis”, como explica Carter. Na Europa, assim como no Brasil, não tem Tennis Channel. Se por aqui, a reclamação dos fãs da ATP não chega aos pés do que sofrem os fãs das meninas da WTA – apenas o Band Sports mostra alguns jogos de alguns torneios, quando querem – lá no Velho Mundo a coisa é bem diferente. Na terra da campeã de Wimbledon, Petra Kvitova, por exemplo, os fãs que possuem TV a cabo podem contar com os canais Eurosport International e Eurosport 2 (que mostram os Grand Slams e os maiores eventos da WTA) e o Sport1, que transmite alguns poucos torneios. Assim como no Brasil, na Europa há mais cobertura para os jogos do circuito masculino. Porém, os fãs da WTA não ficam muito atrás.

Essa semana, os fãs brasileiros se sentiram imensamente desrespeitados por não poderem acompanhar os jogos de um dos torneios mais importantes do calendário: Indian Wells. As transmissões dos jogos começou apenas no sábado, mas a emissora que detém o direito de transmissão (Sportv) além de não transmitir alguns jogos, colocou alguns na grade de programação do canal “fantasma” Sportv3, que não existe em todas as TVs por assinatura. A emissora dona dos direitos do torneio feminino iniciou a cobertura apenas a partir das quartas de final.

Nas próximas duas semanas, será jogado o torneio de Miami e, assim como em Indian Wells, a transmissão dos jogos só será iniciada no sábado, dia 24. Isso significa, por exemplo, que ninguém verá as estreias de Venus Williams (convidada da organização e atualmente fora do top 100 da WTA) e Alisa Kleybanova, que também foi convidada e voltará a disputar um torneio depois de meses afastada para tratar um linfoma. Para que os fãs possam assistir aos seus jogos, elas deverão chegar, pelo menos na terceira rodada, e, depois, teríamos ainda que contar com a sorte de seus jogos serem escalados para a quadra central. Se por um lado é confortante saber que não é só a gente que sofre procurando streams na internet, por outro é preocupante: Se nem na Europa a situação é melhor, quando que esse martírio vai melhorar no Brasil? Antes do fim do mundo? Nossos dedos já estão cruzados.

A dobradinha Indian Wells-Miami é também a maior reclamação do nosso amigo Tcheco: “Eu acho que eles podiam transmitir mais jogos femininos, porque eu acho que a maioria dos fãs são homens e eles gostam de assistir às mulheres, mas os jogos masculinos são melhores em qualidade do que os femininos. De qualquer forma, eu prefiro jogos das mulheres. Definitivamente, nós poderíamos ter maior cobertura das primeiras rodadas dos grandes torneios (exemplo Indian Wells e Miami) e eles poderiam permitir a todo fã de tênis assistir aos jogos de seus favoritos, mas isso não é possível, eu acredito.” Pondera Jirasek.

Enquanto a situação não melhora por aqui ou no resto do mundo e não podemos simplesmente assistir ao jogo do nosso favorito – seja ele(a) top 10 ou quali -, o jeito é recorrer às transmissões na internet. E Isso, quando há transmissão. É muita reza brava e mandiga essa vida de fã de tênis. Se você for fã jogos de duplas então. Você tem a minha solidariedade e a minha pena.

Imagem: Getty Images

P.S.: Obrigado aos nossos colegas de sofrimento e doidos por tênis, Helena Mikic, Ondrej Jirasek, Ben Carter e Frederik Williams, por ter nos aturado e ajudado nessa perturbação à paz alheia.