“¡Viva la revolución!” Este foi o jingle que badalou a breve temporada do saibro azul. A história diz que revoluções são boas, mas qual vantagem elas trazem pra quem é contra elas? Toda vez que eu paro para conversar com meu treinador ele fala “o tênis está à beira de uma revolução, tipo aquela que aconteceu quando os sacadores resolviam tudo em duas bolas”. É bem verdade que houve uma grande mudança no ritmo das partidas de tênis ao longo da história. Conforme os equipamentos e as táticas de jogo foram evoluindo, o esporte foi ficando mais rápido; primeiro com os grandes sacadores das décadas de 80 e 90, passando pelos grandes jogadores de fundo de quadra capazes de neutralizar potentes serviços, que surgiram no final dos anos 90, até chegar ao jogo predominantemente de fundo que temos nos dias de hoje.
Ao longo da semana eu me perguntei se seria o saibro azul o início dessa revolução, mas antes de discutir os benefícios que a nova superfície poderia trazer ao tênis é preciso entender mais sobre ela.
Atualmente são usados, em larga escala, 3 tipos de quadras: hard, grama e saibro, sendo a quadra hard composta de cimento, material sintético, entre outros, caracterizada sempre por ser rápida e com quique mediano; a quadra de grama é composta de… hmmm… grama, sendo a mais rápida de todas e com quique bem baixo; já a quadra de saibro pode ser feita de uma série de materiais diferentes, porém a base, tanto da quadra de saibro quanto da quadra de grama são confeccionadas da mesma maneira.

A principal diferença entre o saibro vermelho e o azul está na cobertura, não só pelo fato de serem de cores diferentes mas sim pela maneira como cada material é tratado antes de ser aplicado à quadra. O pó vermelho que cobre as quadras de saibro normais é constituído de pó de tijolo e argila apenas triturados, já o saibro azul passa por um processo químico em que são retirados o óxido de ferro e outros metais que dão a coloração avermelhada ao material, após este processo o pó torna-se esbranquiçado, é então aquecido a 3800 graus celcius e pintado em outro processo químico (que eu não encontrei dados sobre) e, finalmente, triturado novamente e espalhado sobre a quadra.
Toda a química a qual o pó de tijolo e a argila são submetidos, como a retirada de metais e o aquecimento reduzem tanto a resistência do material (caso fossem usados para algum fim) e também sua capacidade de reter a umidade. Todo mundo que já brincou com argila ou barro quando criança sabe que estes materiais endurecem depois que secam e muitas vezes é dificil amolecê-los novamente, o aquecimento apenas acelera o processo de desidratação das moléculas reduzindo ainda mais a capacidade de retenção de umidade.
Discovery Channel à parte, para manter a característica dos demais tipos de saibro, o azul precisa ser molhado mais que uma vez a cada set, fato que a direção de Madri demorou um pouco a descobrir e causou muito desconforto e revolta nos primeiros dias do torneio. Com o passar da semana foi adotada a estratégia de molhar o saibro a cada 5 games disputados, o que melhorou bastante as condições da quadra mas não foi suficiente pra diminuir, de forma significante, sua velocidade.
Voltando à questão da revolução, após vencer o primeiro set na final de Madri, Tomas Berdych tinha uma média de forehand de 136 km/h e pouquíssimos pontos vencidos com voleios, o que acusa um jogo baseado na regularidade no fundo de quadra. Até então, não há problema algum. O saibro sempre foi uma superfície de paciência e regularidade, mas quando o conceito de regularidade começa a prevalecer em todos os pisos começamos a ter problemas como foi a final do Australian Open de 2012. O jogo entre Nadal e Djokovic teve início às 6 da manhã, em Brasilia, e terminou perto de 1 da tarde. Para os fãs do esporte foi um espetáculo à parte, de tênis de alto nível e superação de limites por parte de ambos os tenistas, mas e para aqueles fãs de esporte em geral que assistem 2 ou 3 jogos durante um torneio e às finais no final de semana, será que, para estes, é agradável ficar 6 horas diante da TV? Jogos como aquele podem contribuir em certos aspectos para a despopularização do tênis, principalmente na questão das transmissões, uma vez que um jogo que segura 6 horas da grade de programação muitas vezes não tem metade da audiência de um jogo de futebol de 90 minutos. 
No final dos anos 90 e início dos anos 2000 quando o tênis era dominado por grandes sacadores e alguns jogos eram rápidos demais causando revolta em quem comprava ingressos para estas partidas, surgiram grandes devolvedores e houve a extinção da quadra de carpete indoor que era o piso mais rápido do circuito. Tudo isso contribuiu para a redução na velocidade do jogo e exigiu que os jogadores evoluíssem seu lado técnico passando assim a depender menos de seus saques.
O grande problema é que com a regularidade dos jogadores de hoje fica cada vez mais dificil a consolidação de sacadores e voleadores, uma vez que para chegar até a rede sem levar uma passada é preciso fazer uma jogada quase perfeita. O saibro azul mostrou o que pode ser a luz no fim do túnel, agir sobre a superfície pareceu ser a maneira ideal de revolucionar o esporte, uma vez que desde que Madri começou a ser disputado no saibro estiveram na final Rafael Nadal, Roger Federer e Novak Djokovic, jogadores que são extremamente regulares no jogo de fundo de quadra. Este ano, no entanto, estavam na final o Federer do saque, do voleio e da variação de jogo e Tomas Berdych, um jogador muito agressivo que joga da linha de base para frente. No entanto, venceu quem variou mais, quem usou mais recursos e não quem só manteve a regularidade soltando porradas do fundo.
Ao longo do torneio, Milos Raonic sacou a 230 km/h, foi à rede, fez belos slices e esteve perto de eliminar Roger Federer; Rafael Nadal e Novak Djokovic se irritaram com a dificuldade de estabilização do jogo, perderam a cabeça e caíram precocemente. O saibro azul mostrou que talvez seja possível obrigar os novos jogadores a serem mais completos ganhando jogos usando todos os fundamentos do esporte, mas também pode causar uma grande revolta entre os atletas e, de alguma maneira, prejudicar muito o esporte.
Tirando a pesquisa do saibro azul, que foi realizada durante a semana de Madri, o papo sobre revolução apareceu durante uma conversa com meu treinador e alguns amigos, também do tênis, que acham que a mudança é necessária. E vocês, o que acham disso tudo?
Imagens: Daylife, Pó Piacentini